Prove que é um ser humano: 3   +   10   =  

Cheguei a tempo de assistir um dosador voando sobre o balcão e se chocando contra a cabeça do cumin.

Briga de bar é uma coisa que me deixa atordoado. Gosto de imaginar o recinto como um templo budista e seus frequentadores como discípulos desgarrados de um Prem Baba ou algo assim.

Mas alguma o cumim fez. Na falta de um mordomo, a culpa tende a ser dele.

Ao notar minha presença, o barman Fernando me olha com aquele olhar de súplica e grita: “Roubaram minha colher bailarina”.bailarinaAquela colher bailarina, a mítica colher bailarina, aquela que faz do nobre Fernando o profissional mais confiante e genial da coquetelaria brasileira.

(Leia mais sobre a história dessa colher aqui).

Um galo desponta na testa do cumim que jura inocência.

Fernando chora e diz sentir-se amputado, incapaz de exercer seu ofício.

Penso, egoísta que sou, que nunca mais vou tomar um Manhattan tão bom.

Quase cometo a heresia de dizer que toda colher bailarina é igual, que o talento dele não depende de um pedaço de metal e…

Eu sei que roubou sua colher”, confessa o cumim depois de saber onde a garrafinha de Angostura seria introduzida caso não confessasse o delito.
“Eu não roubei, mas vi quem foi”.

“Desembucha, homem” – rosnou Fernando.

Então, o cumim conta uma história inacreditável…

Na noite anterior, um grupo de lutadores de sumô havia reservado a maior mesa do salão – com a desculpa de comemorar a aposentadoria de um deles. O grupo, formado por seis gigantes, foi um transtorno para a casa. Além de espaçosos, barulhentos e valentões, os gigantes passaram a noite inteira bebendo saquerinhas de kiwi – e não tem nada mais frustrante do que passar uma noite inteira servindo saquerinhas de kiwi. Por volta das duas da manhã, quando o bar já estava prestes a fechar, dois dos lutadores de sumô se aproximaram do balcão e furtaram a colher bailarina – colocando uma genérica no lugar.

“E você não fez nada”? – perguntou cheio de indignação o nobre Fernando.bailarina2

“Fiz, cheguei junto, disse que tinha visto tudo e que aquilo não era certo” – contou o comim.

“E daí…”

“Daí que eles me ameaçaram…”

“Fisicamente”?

“Não, com uma nota de cem reais. Tive que aceitar. Achei que morreria se não pegasse aquele dinheiro da mão do japa gordo” – falou o cumim.

Tive de deter o Fernando – que tentou quebrar um mixing glass na cabeça do sujeito.

Como já estava metido naquela história até o pescoço, fiz uma rápida pesquisa no google do meu celular e descobri que só havia uma equipe de sumô em São Paulo, a “200 Quilos de Terror”.

“Vamos conversar com eles” – sugeri (para me arrepender no segundo seguinte).


Naquela mesma tarde, eu e Fernando estávamos batendo a porta de uma academia de sumô no bairro da Liberdade. Como ninguém abriu, entramos sem pedir licença. Caminhávamos com receio por um salão escuro quando as luzes se ascenderam. Estávamos no centro de um tatame.

Aquilo ia dar merda.Ouvimos passos, parecia uma manada. De cada canto daquele salão surgiu um lutador de sumô. Pelados. Não. Quase. Só usavam aquele tipo de fralda (que deve ter um nome que eu não conheço) que os profissionais usam.bailarina4Tentei me apresentar…

Mas os seis homens foram se aproximando lentamente do centro do tatame – onde eu e o barman Fernando estávamos. Formou-se um círculo ao nosso redor, um círculo que ia se apertando, se apertando, se apertando…

Éramos jogados de barriga em barriga, quase absorvidos por quilos de banha, por 200 Quilos de Terror.

Morreríamos ali, afogados em banha.

Mas tive uma ideia.

“SAQUERINHA!” – gritei.

Os lutadores de sumô pararam de nos jogar de um lado para outro.

“Meu amigo aqui veio oferecer pra vocês uma tarde especial e grátis de saquerinhas de kiwi” – menti.

Um por um, os lutadores de sumô foram abrindo sorrisos luminosos e infantis.


Duas horas e um supermercado depois, Fernando e eu (como assistente, claro) estávamos preparando saquerinhas de kiwi para um time inteiro de sumô.

A ideia era embebedá-los até que um deles contasse algo sobre a colher bailarina.

Foi o que aconteceu.

Todo amor ao kiwi!

Nossa jornada em busca da colher bailarina estava apenas começando…

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